Simulador de tortura, jogo 'Tormentor' cruza linha do aceitável no mundo dos games

Diferente de títulos como 'GTA', novo lançamento na Steam tem violência como objetivo final

A plataforma Steam disponibilizou, em dezembro, o jogo "Tormentor", que recebeu uma série de avaliações negativas na plataforma.

O motivo é simples: o título, lançado pela desenvolvedora polonesa Madmind Studio, é um simulador de tortura. O jogador é um torturador em uma prisão abandonada, lotada de prisioneiros sentenciados à morte. O game diz ser possível "compartilhar o sofrimento deles [os prisioneiros] com o mundo, atraindo recompensas maiores e oportunidades mais sinistras".

Não é a primeira vez que a biblioteca de jogos da Valve inclui games que simulam crimes. A plataforma já abrigou o "No Mercy", que era um simulador de estupro. O game incentiva que o protagonista "se torne o pesadelo de todas as mulheres" e "nunca aceite 'não' como resposta". Após protestos dos usuários, a Steam removeu o título.

Desenvolvedores desse tipo de jogo costumam afirmar que o trabalho é ficção e não endossa nenhum tipo de ação violenta. Mesmo assim, esses lançamentos têm impacto social e cultural. Envolve a tolerância e a propagação de discursos criminosos, especialmente para o público mais jovem.

Games têm ampla capacidade de abordar assuntos com relevância social e política em enredos. Temas como bullying, identidade, sexualidade, disputa política e a história de determinadas regiões são comumente utilizados como pano de fundo para o desenvolvimento de personagens e cenários.

Discutir o nível do aceitável no desenvolvimento de jogos é uma tarefa tão difícil quanto em filmes ou séries de televisão. Há anos o tema é debatido pela opinião pública em meio a lançamentos de grande repercussão, como "GTA", da Rockstar Games, que utiliza uma série de crimes como meio para completar missões no jogo.

Nesse caso, a desenvolvedora afirma que a narrativa não traz a violência como um fim, e sim uma sátira social, cultural e política dos Estados Unidos. Por isso, afirma, o game é classificado para maiores de 18 anos —que poderiam, em tese, distinguir realidade de ficção.

Do outro lado, críticos afirmam que, independentemente do formato da violência, ela influencia jogadores a comportamentos agressivos. O game, de fato, não é feito para crianças e adolescentes e não deve ser acessado por esse público, mesmo que não haja um controle rígido de identidade para a compra do produto.

Jogos como o "Tormentor" e o "No Mercy", porém, são diferentes de um "GTA". Não se trata do uso da violência como elemento estético para uma história mais profunda, como faz o diretor Quentin Tarantino em seus filmes, nem do uso do terror psicológico para abordar traumas, como nas produções de Jordan Peele.

É o crime pelo crime. A tortura pela tortura, o estupro pelo estupro. Os crimes são o objetivo final. O jogador precisa torturar mais, estuprar mais, escravizar mais.

Em tempos de polarização, a força e a repercussão deste tipo de jogo tem resultados ainda mais catastróficos. Em tempos de algoritmos que servem de autoafirmação até para as piores crenças, estes jogos legitimam discursos que considerávamos superados até pouco tempo atrás.

Decidimos, enquanto planeta, trabalhar contra a tortura e a discriminação, seja por critério étnico-racial, de gênero, de sexualidade ou de religião. Da mesma forma, entendemos que estupro, escravização e formas de subjugar populações são abomináveis e precisam ser erradicadas. Games como "Tormentor" são um desserviço e trabalham para o oposto desses objetivos firmados pela sociedade.

É papel das plataformas entender que, por mais flexíveis que sejam os critérios de liberdade de expressão, não é possível permitir que crimes sejam propagados em games sem um contexto que o encaixe na narrativa de alguma forma.

Os valores de uma sociedade igualitária são muito maiores do que mero "trabalho de ficção, no qual as personalidades são criadas com propósitos de narrativa e não devem ser interpretadas como retratos de pessoas reais", como alega a Madmind Studio.



Fonte: Folha de S. Paulo

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